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Ainda não ganhaste o direito de cobrar pelos teus conteúdos!

Pagar por conteúdos editoriais. Há muito tempo que pagamos pelo direito de consumir jornais e revistas e até já existem websites que cobram pelo acesso ilimitado aos seus portais. Apesar disso, a sobrevivência e prosperidade dos jornais, revistas e websites continua intimamente ligada à publicidade – e esses meios de comunicação, sobretudo os especializados, têm cada vez mais dificuldade em encontrar anunciantes.

Os hábitos de leitura mudaram. Esperar 30 dias por uma nova revista, por exemplo, já não é razoável. As publicações não se conseguem reinventar e, por causa disso, fecham portas. As editoras deixaram de ter produto e um modelo de negócio sustentável. As consequências disso são evidentes: procura-se poupar em tudo, inclusive na qualidade dos conteúdos, e fica-se com um jornalismo mais pobre (outra razão porque se compram menos revistas). Na verdade, parece-me até que os jornalistas já não são contratados por mérito próprio, mas sim por quão mais baixo for o valor monetário que estão dispostos a receber mensalmente.

Tenho um colega que vai mais longe. Diz que os recém-licenciados em jornalismo e comunicação deixam-se levar por títulos pomposos, não se apercebendo que muito dificilmente serão aumentados ou conseguirão alguma vez crescer dentro da editora. Este tipo de atitude fomenta a mediocridade.

Esta parece-me ser a realidade portuguesa há alguns anos. Mas estou-me a desviar.

O que é que funciona neste momento?

Os média precisam urgentemente de uma disrupção que ponha um fim ao velho e dê lugar ao novo. Não há na verdade ninguém que esteja na frente desta revolução, mas já existem alguns projectos que desafiam o convencional com soluções interessantes. Gostava de destacar dois com origem nos Estados Unidos.

O primeiro é o GiantBomb.

Fundado em 2008 por dois ex-editores do GameSpot, o GiantBomb é um website especializado na cobertura de videojogos cujo modelo de negócio passa sobretudo por subscrições pagas. OK, raramente as subscrições pagas neste meio são boa ideia. As primeiras tablet PCs também não eram… O que quero dizer é que a massa crítica é possível quando e só quando se satisfazem certas condições, a primeiras das quais sendo: ter um produto que ofereça valor acrecentado face à oferta existente. A publicidade continua a ser absolutamente basilar no financiamento de uma companhia de média, mas compete à próxima geração de empreendedores diminuir o seu peso com novos modelos de negócio.

O GiantBomb tinha em Junho de 2011 cerca de 10 mil membros pagantes[1]. Nada mau para um site fundado em 2008, para um nicho do mercado ainda por cima. Como é que conseguiram? Concentrando-se naquilo em são bons, o que neste caso quis dizer não perdendo muito tempo a cobrir notícias que todos os muitos concorrentes do site fazem e, em vez disso, produzir conteúdo original, a maior parte baseado em vídeos de alta definição, alguns gratuítos e outros exclusivos a membros pagantes. Para além disso, os redactores e editores do portal são carismáticos, profundos conhecedores da sua área e tiveram uma série de boas ideias para segmentos que entretanto se difundiram pelo jornalismo de videojogos.

Outras características vencedoras incluem: wikis, podcast e vídeos semanais, anúncio de conteúdos a publicar, transmissões ao vivo, proximidade dos jornalistas com os leitores tanto no site como nas redes sociais, etc.

Onde quero chegar: o que o IGN faz não é fundamentalmente diferente daquilo que o GameSpot faz. Aquilo que o Kotaku faz não é fundamentalmente diferente daquilo que o Joystiq faz. Ninguém faz o que o GiantBomb faz.

O GiantBomb ganhou o direito de cobrar pelos seus conteúdos.

Um nova era de revistas

A 955 Dreams é uma empresa que se dedica ao desenvolvimento de aplicações de informação e entretenimento em ambiente iOS, tais como a Band of the Day, uma revista de música dita “New Age”[2].

A Band of the Day é uma das mais interessantes aplicações móveis de infotainment até hoje concebidas e no entanto, à primeira vista, não passa de um calendário. Um calendário navegável por toque onde cada dia do mês é recheado com texto, vídeo e música de um artista… mas um calendário.

O conceito é, ao mesmo tempo, simples e genial. Em vez de utilizar as pegadas digitais do utilizador para recomendar música, é a equipa da Band of the Day que se ocupa de vasculhar por centenas ou milhares de artistas e fazer chegar ao terminal do utilizador uma banda nova por dia e as faixas que melhor representam aquele grupo. É um processo caracteristicamente humano, algo que cada vez mais startups parecem ignorar. O próprio design gráfico, tipografia e conteúdos editoriais da aplicação são desenvolvidos internamente, o que atribui à Band of the Day uma elegância raramente perceptível na concorrência e um elemento diferenciador. E os utilizadores da aplicação estão de acordo comigo.

O modelo de negócio da Band of the Day também passa por subscrições pagas, mas há uma grande diferença entre esta aplicação móvel e o GiantBomb: ninguém te barra a entrada ao GiantBomb se não fores subscritor.

A aplicação Band of the Day é gratuita e até podes usufruir dos seus conteúdos durante um período limitado de tempo, mas é inevitável: eventualmente, se quiseres continuar a receber a actualização diária, terás de pagar uma mensalidade ou anuidade.

A filosofia e modelo de negócio desta aplicação vão ao encontro daquilo que tenho vindo a defender: as revistas vão sobreviver e prosperar porque a vontade de consumir informação e entretenimento de formas cada vez mais rápidas e sofisticadas não pára de crescer. A Band of the Day oferece exactamente isso. E a Band of the Day também ganhou o direito de cobrar pelos seus conteúdos.

As publicações não podem mais depender da publicidade para subsistir. A solução passa sobretudo por encontrar novos modelos de negócio, que devolvam às editoras a sua independência. Não há razões para acreditar que isto não seja possível. Para além de já existirem projectos que desafiam o convencional de forma bem sucedida, é precisamente através da ruptura que as indústrias, mesmo as mais estabelecidas e conservadoras, podem mudar.

[1] http://www.whiskeymedia.com/news/business-update-ads-are-back/17/

[2] http://www.youtube.com/watch?v=GEHqXEKt4nQ

P.S. Queria agradecer ao web designer Hugo da Costa (http://hugodacosta.net) pelos fantásticos banner e favicon que adornam agora este blogue.

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As revistas estão mortas. Longa vida às revistas!

As revistas vão sobreviver e prosperar porque nunca fomos tão preguiçosos e nunca estivemos tão ocupados. Porque a vontade de consumir informação e entretenimento de formas cada vez mais rápidas e sofisticadas não pára de crescer. Porque, cada vez mais, queremos só o que nos interessa e esteja adaptado ao nosso estilo de vida.

Somos demasiado comodistas e em breve exigiremos que alguém se ocupe do busy work por nós. Mais do que nunca.

Diagrama

Nunca houve tanta coisa a gritar pela nossa atenção. Mas também nunca tivemos tão pouco tempo para fazer o que gostamos. Mil e um afazeres sobrecargam os nossos dias. Um ou mais empregos, faculdade, família, amigos, etc. Os novos estilos de vida garantem que nunca estejamos ou possamos estar parados muito tempo no mesmo sítio. Estamos sobrecarregados, mas continuamos a querer estar ligados e a consumir conteúdos.

Os novos dispositivos móveis são objecto de cobiça porque nos permitem essa ligação e ainda ficar a par da next best thing, seja ela qual for. Não é tanto uma questão de especificações técnicas, processadores ou memória (e é por vender tecnologia que as tablets Android falham) como é uma questão de «com isto posso ver vídeos, ouvir música, falar com os meus amigos e não perder nada do que se passa no mundo». É uma questão de entretenimento.

There's an App for that

A Web? Essa é uma enorme confusão. Navegar já não é tão empolgante como costumava ser. Hoje estamos mais interessados em encontrar. Não temos tempo nem paciência para navegar pelas profundezas da Web. Somos attention whores numa attention age. Queremos resultados imediatos, queremo-los já, para ontem e sem ter de recorrer à Web.

Daí o sucesso das aplicações móveis dos smartphones, tablets e até dos PCs (vejam a Mac App Store). Elas ensinaram-nos que é possível consumir conteúdos de formas mais rápidas e eficazes. Ensinaram-nos que é possível não perder nada daquilo que nos interessa mesmo que estejamos mais ocupados do que nunca. E elas ensinaram-nos a ser preguiçosos, a optar pela conveniência de encontrar em vez de procurar.

Navegar é uma seca

A nossa crescente preguiça e falta de tempo levará ao surgimento de uma nova geração de revistas (digitais).

Quando os smartphones e tablets se disseminarem quereremos não só rapidez, informação e entretenimento, como a rapidez, informação e entretenimento certos. Quereremos gastar o nosso pouco tempo livre de forma útil, consumindo informação e entretenimento que nos recompensará. Quereremos alguém a ocupar-se do busy work por nós para filtrar exactamente aquilo que nos interessa e de forma personalizada. Quereremos revistas.

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